“Aconteceu, o que aconteceu, foi melhor assim, estava por um fio, estava por um triz, estava já no fim. Todo mundo via que acontecia, pois aconteceu. Era o que devia.” (Aconteceu, Marisa Monte e Arnaldo Antunes)
A decisão do Copom ontem pode ter surpreendido em razão do histórico conservador do Banco Central, mas não chega a causar estranheza – tanto que muitas apostas já haviam migrado justamente para a queda de 1 ponto porcentual desde a terça-feira. “Os dados de inflação têm vindo bem positivos e os dados de atividade indicam forte desaceleração. A decisão é correta”, avaliou o sócio de uma asset em São Paulo.
Não serão, contudo, poucos os que discutirão hoje se o BC cedeu ou não às pressões da ala desenvolvimentista do governo ao adotar um corte mais agressivo do que a maioria dos analistas aguardava (0,75 ponto).
Para o sócio de uma corretora em São Paulo, o Copom não cedeu, apenas aguardou os novos números para baixar os juros. “O BC está além do que o mercado quer. Ele não faria isso a troco de nada. O que surpreendeu foi que a inflação passou para deflação, além dos 600 mil empregos perdidos em dezembro…Está mais do que provado que estamos entrando em um ciclo recessivo, mesmo que seja curto. Isso deu munição para o BC reduzir a Selic”, analisou.
No comunicado que acompanhou a decisão, o BC disse que começou o ciclo de flexibilização do juro realizando de imediato parte relevante do movimento. Em relatório distribuído após a decisão, uma instituição financeira estrangeira avaliou que tal citação fornece mais informação sobre o ritmo do afrouxo monetário do que o ciclo total a ser cumprido. “Assim, se a economia não responder nos próximos meses ao estímulo monetário, muitos mais cortes viriam.”
As atenções agora se voltam para a ata da reunião, que será divulgada na próxima semana. Antes disso e na expectativa sobre o que esse documento irá indicar, porém, os mercados locais certamente reagirão à decisão e ao comunicado que acompanhou o anúncio da queda do juro básico para 12,75% ao ano.
No caso dos DIs, o comunicado permite à curva precificar um corte perto de 1 pp na reunião de março, o que tende a beneficiar os vencimentos mais curtos, avalia o banco estrangeiro, prevendo que o DI janeiro/2010 deve cair de 11,15% para 11,00%. No caso das taxas mais longas, a reação deve ser mais tímida, estima. “O balanço de riscos mais o fluxo de dados ainda dão suporte ao mercado de juros, mas a relação risco/retorno já não é mais tão atrativa.”
Ontem, o DI janeiro/10 encerrou a 11,15%, de 11,24% na véspera, de acordo com a BM&FBovespa.
No câmbio, “a ação mais agressiva do Copom não deve inviabilizar nossa previsão de alta técnica do real, que deve testar o nível de R$ 2,30 contra o dólar”, avalia a instituição estrangeira. A decisão de ontem, contudo, apenas confirma que a política monetária e a perspectiva de crescimento não irão desencadear um grande rali do real, analisa. “Nós continuamos a ver o real operando em um tom fraco no primeiro semestre de 2009.”
Ontem, o dólar comercial encerrou a R$ 2,352, em queda de 0,80%.
Na Bovespa, o corte ousado do Copom pode animar os investidores. Conforme chamou a atenção o sócio da corretora citado acima, a Bolsa brasileira já está descolada de suas pares em Nova York. E uma decisão como a de hoje pode ajudar ainda mais.
O Ibovespa terminou o dia em alta de 3,41%, aos 38.542 pontos.